• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Sexta, 05 Março 2021    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Seg.
 16° / 7°
Períodos nublados
Dom.
 19° / 8°
Períodos nublados
Sáb.
 20° / 6°
Céu limpo
Torres Novas
Hoje  17° / 10°
Céu nublado com chuva fraca
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

Não sabemos morrer - inês vidal

Opinião  »  2021-02-05  »  Inês Vidal

"Nunca superamos uma morte, apenas nos moldamos a ela, nos reconstruímos em torno do vazio que deixa "

Ouço os sinais ao longe. Um pranto gritado bem alto, do alto dos sinos da igreja, por alguém que partiu. É já raro ouvir-se. Por norma, pelo menos na nossa cidade, ecoam apenas pelos que muito deram de si à causa religiosa. Ontem, os sinos choraram. E com eles, uma família, os amigos, uma comunidade. Juntos na dor, separados na distância, gritaram mudos, em silêncio. Nos dias que correm, choramos para dentro, não nos são permitidas manifestações maiores de carinho e luto.

A morte, tema que sempre tentámos varrer para baixo do tapete, tornou-se, ao longo deste último ano, assunto do dia. Entra-nos pela casa dentro mesmo que não queiramos, diariamente, com hora marcada, por tudo o que é ecrã ou jornal e naquele telefonema que não queríamos mesmo atender. É a única notícia que temos, pelo menos a única que nos agita os dias: a morte e como tentar fugir dela.

Habituámo-nos a contar mortos às centenas, como se de um mero número se tratasse, quando na verdade falamos em muitas horas de vida, experiências inúmeras, feitos e desfeitos, famílias e amigos em dor. Isso, multiplicado por centenas, milhares e milhões de nomes. Cada morto é toda uma vida que foi e que deixou raízes, não apenas um número adicionado à lista que parece não querer parar de crescer.

Não sabemos morrer. Nascemos e crescemos apenas com um objectivo maior: adiar a morte, aquela que sabemos ser inevitável, mas cuja inevitabilidade nos recusamos a aceitar, geração após geração, por mais anos que passem desde que o mundo é mundo. A morte não nos é intuitiva, não a reconhecemos, verbalizamos ou visualizamos, e por mais que nos tentem convencer de que é apenas o último passo para o início do verdadeiro caminho, há horas em que ninguém a encara com tal lirismo: precisamente naquelas em que nos toca a nós.

Não romanceamos a passagem para o outro lado, não vemos cor, apenas um fim negro para nós e para os nossos, a separação definitiva, o último suspiro... Quando se trata da morte dos nossos, sufocamos nela, por não a compreender. Quando morrem aos outros, entre esgares de tristeza e votos de sentimentos sinceros, viramos a cara ao lado, não por despeito, apenas como defesa, numa tentativa de que esse afastamento adie aquele dia, que um dia será também o nosso.

Sendo esta inevitabilidade tão certa - das coisas mais certas que temos -, não deixa de ser curioso o facto de não conseguirmos encarar de forma mais leve o momento da morte e de todos os rituais que a envolvem. Durante muito tempo, não percebi o momento da despedida e a forma como o encenávamos. Toda aquela performance cénica carregada parecia-me feita para castigar ainda mais aqueles que, em terra, ficavam a sofrer. Só quando privada desse ritual de despedida, na maior despedida de todas, percebi que nada é por acaso e que a dor que nos pedem, no momento do adeus, mais não é do que um primeiro e imprescindível passo para uma eventual cura, conformismo e aceitação do implacavelmente inaceitável.

Vivemos momentos únicos na nossa história: uma pandemia como não há memória na memória da gente que resta. Morrem-nos aos montes e aos que ficam pede-se contenção na despedida. Pede-se que não nos despeçamos olhos nos olhos de quem nos fez viver, de quem nos amou ou fez feliz, de quem cuidamos. Despedimo-nos sem dizer adeus, muitas vezes sem um único vislumbre do seu rosto, apenas um caixão a cadeado, ficando para sempre em suspenso uma vida, que desaparecendo da nossa vista, não conseguimos deixar partir.

A despedida é, sem dúvida, um “bem” de primeira necessidade. Quem diz o contrário é porque nunca teve a infelicidade de se ver privado dela. São necessárias lágrimas, as nossas e as dos outros, são necessários abraços e os elogios que ficaram por dar em vida. Mesmo que não o consigamos ver à data, precisamos de pessoas à volta, muitas, quantas mais melhor, que nos mostrem o quão amada ou respeitada era a pessoa que agora, contra a nossa vontade, teremos de deixar partir. Precisamos de olhar os nossos nos olhos uma última vez, fazer uma festa, sussurrar ao ouvido o quanto os amamos e o quanto lhes agradecemos tudo o que construímos juntos nessa nossa vida a dois. Precisamos de os ver partir, formalizar e concretizar a ida, por mais fundo que rasgue o som da terra a cair ou o crepitar das chamas.

A pandemia vai deixar sequelas. Muitas. Além dos que partem, morrem os que cá ficam, como que amputados de um membro que sempre foi deles, agora arrancado à força. Nunca superamos uma morte, apenas nos moldamos a ela, nos reconstruímos em torno do vazio que deixa, nos reorganizamos. Nunca superamos uma morte, porque nunca nos ensinaram a fazê-lo, mas certamente que um dos primeiros passos para o fazer é ter espaço e tempo para a despedida condigna que todos merecem.

Não sabemos morrer, nem deixar morrer. Deveríamos ser preparados desde cedo para isso, mas não somos, porque quem nos poderia preparar também não o foi. É um ciclo, uma espiral. E, enquanto assim for, continuaremos a chorar a pessoa que foi, no lugar de rirmos a pessoa que fomos juntos. 

 

 

 

 

 Outras notícias - Opinião


Nicolau III - rui anastácio »  2021-02-22  »  Rui Anastácio

Dizia-se do último czar da Rússia, Nicolau II, que a sua opinião era a opinião da última pessoa com quem tinha falado. Cem anos depois, Nicolau II reencarnou em alguma daquela rapaziada que tomou conta dos principais partidos da nossa democracia.
(ler mais...)


Na mouche - josé ricardo costa »  2021-02-22  »  José Ricardo Costa

Quando saí de Torres Novas para ir estudar em Lisboa já sabia que iria depois sair de Lisboa para vir trabalhar em Torres Novas. A primeira razão para voltar foi de natureza umbilical: eu ser de Torres Novas como outros são de Mangualde ou Famalicão.
(ler mais...)


A pandemia, o Estado e os portugueses - jorge carreira maia »  2021-02-22  »  Jorge Carreira Maia

Se se observar o comportamento dos portugueses perante a pandemia, talvez seja possível ter um vislumbre daquilo que somos e de como gostamos de ser governados. Obviamente que não nos comportamos todas da mesma forma e não gostamos todos de ser governados da mesma maneira.
(ler mais...)


Altruísmo heróico e outras fábulas - carlos paiva »  2021-02-22  »  Carlos Paiva

O herói nacional, melhor jogador de futebol do mundo de sempre, segundo dizem, foi protagonista numa daquelas histórias que são matéria-prima para solidificar lendas. Nessa história, sublinhando as origens humildes, o estratosférico conquista mais um laço com o Zé comum.
(ler mais...)


A oportunidade da sobra - antónio gomes »  2021-02-22  »  António Gomes

Apesar da limitação de vacinas nesta fase, o país tem vindo a ser confrontado com variados episódios de vacinação fora do que está priorizado. Há sempre alguém que se julga acima das normas ou que faz as suas próprias normas e ultrapassa assim os que estão na fila, ou então por via de terceiros chegam primeiro à seringa.
(ler mais...)


São sobras, Senhor! São sobras! - ana lúcia cláudio »  2021-02-22  »  Ana Lúcia Cláudio

Na falta de acções presenciais, multiplicaram-se, nos últimos meses, as iniciativas on-line sobre os mais diversos assuntos. Num destes eventos em que participei, sensibilizou-me, particularmente, o testemunho de um ex-ministro social-democrata que, quando questionado sobre um eventual regresso à vida política mais activa, reconheceu que não pretende fazê-lo porque, e nas suas palavras, os quatro anos em que foi ministro mudaram-no, levando amigos e familiares mais próximos a dizerem-lhe que, nessa altura, ele não era “o mesmo Nuno”.
(ler mais...)


PSD: a morte há muito anunciada - inês vidal »  2021-02-20  »  Inês Vidal

 1. O PSD de Torres Novas é uma anedota. Ao mesmo tempo que digo isto, ouço já ao fundo vozes a erguerem-se contra esta forma crua e dura de arrancar com este texto. Imagino até as conclusões de quem tem facilidade de falar sem saber: é do Bloco, dizem uns, comunista desde sempre, atiram outros, indo ainda mais longe, lembrando que dirige aquele pasquim comunista, conforme aprenderam com o ex-presidente socialista.
(ler mais...)


Vacina »  2021-02-18  »  Hélder Dias

Développé - rui anastácio »  2021-02-07  »  Rui Anastácio

Passo de ballet, movimento em que a bailarina estica graciosamente a perna, tem diferentes níveis de dificuldade consoante a direcção da perna e a altura a que chega o pé, requer um grande equilíbrio e um elevado nível de concentração.
(ler mais...)


 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2021-02-05  »  Carlos Paiva Hill Street Blues - carlos paiva
»  2021-02-20  »  Inês Vidal PSD: a morte há muito anunciada - inês vidal
»  2021-02-22  »  José Ricardo Costa Na mouche - josé ricardo costa
»  2021-02-18  »  Hélder Dias Vacina
»  2021-02-05  »  Jorge Carreira Maia O estranho caso das vacinas - jorge carreira maia