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Não sabemos morrer - inês vidal

Opinião  »  2021-02-05  »  Inês Vidal

"Nunca superamos uma morte, apenas nos moldamos a ela, nos reconstruímos em torno do vazio que deixa "

Ouço os sinais ao longe. Um pranto gritado bem alto, do alto dos sinos da igreja, por alguém que partiu. É já raro ouvir-se. Por norma, pelo menos na nossa cidade, ecoam apenas pelos que muito deram de si à causa religiosa. Ontem, os sinos choraram. E com eles, uma família, os amigos, uma comunidade. Juntos na dor, separados na distância, gritaram mudos, em silêncio. Nos dias que correm, choramos para dentro, não nos são permitidas manifestações maiores de carinho e luto.

A morte, tema que sempre tentámos varrer para baixo do tapete, tornou-se, ao longo deste último ano, assunto do dia. Entra-nos pela casa dentro mesmo que não queiramos, diariamente, com hora marcada, por tudo o que é ecrã ou jornal e naquele telefonema que não queríamos mesmo atender. É a única notícia que temos, pelo menos a única que nos agita os dias: a morte e como tentar fugir dela.

Habituámo-nos a contar mortos às centenas, como se de um mero número se tratasse, quando na verdade falamos em muitas horas de vida, experiências inúmeras, feitos e desfeitos, famílias e amigos em dor. Isso, multiplicado por centenas, milhares e milhões de nomes. Cada morto é toda uma vida que foi e que deixou raízes, não apenas um número adicionado à lista que parece não querer parar de crescer.

Não sabemos morrer. Nascemos e crescemos apenas com um objectivo maior: adiar a morte, aquela que sabemos ser inevitável, mas cuja inevitabilidade nos recusamos a aceitar, geração após geração, por mais anos que passem desde que o mundo é mundo. A morte não nos é intuitiva, não a reconhecemos, verbalizamos ou visualizamos, e por mais que nos tentem convencer de que é apenas o último passo para o início do verdadeiro caminho, há horas em que ninguém a encara com tal lirismo: precisamente naquelas em que nos toca a nós.

Não romanceamos a passagem para o outro lado, não vemos cor, apenas um fim negro para nós e para os nossos, a separação definitiva, o último suspiro... Quando se trata da morte dos nossos, sufocamos nela, por não a compreender. Quando morrem aos outros, entre esgares de tristeza e votos de sentimentos sinceros, viramos a cara ao lado, não por despeito, apenas como defesa, numa tentativa de que esse afastamento adie aquele dia, que um dia será também o nosso.

Sendo esta inevitabilidade tão certa - das coisas mais certas que temos -, não deixa de ser curioso o facto de não conseguirmos encarar de forma mais leve o momento da morte e de todos os rituais que a envolvem. Durante muito tempo, não percebi o momento da despedida e a forma como o encenávamos. Toda aquela performance cénica carregada parecia-me feita para castigar ainda mais aqueles que, em terra, ficavam a sofrer. Só quando privada desse ritual de despedida, na maior despedida de todas, percebi que nada é por acaso e que a dor que nos pedem, no momento do adeus, mais não é do que um primeiro e imprescindível passo para uma eventual cura, conformismo e aceitação do implacavelmente inaceitável.

Vivemos momentos únicos na nossa história: uma pandemia como não há memória na memória da gente que resta. Morrem-nos aos montes e aos que ficam pede-se contenção na despedida. Pede-se que não nos despeçamos olhos nos olhos de quem nos fez viver, de quem nos amou ou fez feliz, de quem cuidamos. Despedimo-nos sem dizer adeus, muitas vezes sem um único vislumbre do seu rosto, apenas um caixão a cadeado, ficando para sempre em suspenso uma vida, que desaparecendo da nossa vista, não conseguimos deixar partir.

A despedida é, sem dúvida, um “bem” de primeira necessidade. Quem diz o contrário é porque nunca teve a infelicidade de se ver privado dela. São necessárias lágrimas, as nossas e as dos outros, são necessários abraços e os elogios que ficaram por dar em vida. Mesmo que não o consigamos ver à data, precisamos de pessoas à volta, muitas, quantas mais melhor, que nos mostrem o quão amada ou respeitada era a pessoa que agora, contra a nossa vontade, teremos de deixar partir. Precisamos de olhar os nossos nos olhos uma última vez, fazer uma festa, sussurrar ao ouvido o quanto os amamos e o quanto lhes agradecemos tudo o que construímos juntos nessa nossa vida a dois. Precisamos de os ver partir, formalizar e concretizar a ida, por mais fundo que rasgue o som da terra a cair ou o crepitar das chamas.

A pandemia vai deixar sequelas. Muitas. Além dos que partem, morrem os que cá ficam, como que amputados de um membro que sempre foi deles, agora arrancado à força. Nunca superamos uma morte, apenas nos moldamos a ela, nos reconstruímos em torno do vazio que deixa, nos reorganizamos. Nunca superamos uma morte, porque nunca nos ensinaram a fazê-lo, mas certamente que um dos primeiros passos para o fazer é ter espaço e tempo para a despedida condigna que todos merecem.

Não sabemos morrer, nem deixar morrer. Deveríamos ser preparados desde cedo para isso, mas não somos, porque quem nos poderia preparar também não o foi. É um ciclo, uma espiral. E, enquanto assim for, continuaremos a chorar a pessoa que foi, no lugar de rirmos a pessoa que fomos juntos. 

 

 

 

 

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