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“Sábado à tarde” no cinema perto da avenida

Opinião  »  2018-01-30  »  José Ricardo Costa

"O Cine-Clube era de outro campeonato, dando ao cinema um sabor mais gourmet"

Um quadro pode ter milhares de reproduções, em livros de arte, na Internet, posters, puzzles ou até chapéus-de-chuva. Mas estar perante o original, o quadro único e irrepetível saído da mão do pintor, que só existe naquele momento e ali à nossa frente, é quase como a experiência religiosa de estar num espaço sagrado. E não é só isso. Quanto oceano separa o nosso Largo da Botica da Mulher com Alaúde de Vermeer? A quantos quilómetros fica da Harmonia em Vermelho de Matisse? Pode-se ir lá vê-los mas o mais certo é ir com a ideia de ser a primeira e última vez, fazendo desse momento uma irrepetível hierofania. Mesmo ir ali a Madrid ver As Meninas não é bem como ir aqui a um sítio mais à mão de semear.

Por muito estranho que pareça hoje a um jovem de pendrive no bolso com dezenas de filmes tirados da net para ver no portátil entre dois jogos de computador e competindo com dezenas de mensagens sobre coisa nenhuma, houve um tempo em que ver cinema também era como estar num museu perante quadros inacessíveis de outro modo. Basta pensar como, antes da Internet, da pendrive, do DVD ou da cassete do clube de vídeo da esquina, se veria o filme de Chaplin, de Ford, de Kazan, de Bergman, de Fellini, de Truffaut, de Woody Allen, que se desejaria ver. Sim, onde? Acontece que, por vezes, era possível o milagre de o ver em Torres Novas, graças a um cinema chamado Virgínia e a um Cine-Clube. E, cá está, acreditando-se, longe de adivinhar o futuro que aí vinha, que seria a primeira e última vez.

Esse milagre tornava o filme algo especial mesmo para quem não tinha grandes veleidades cinéfilas e ia ao cinema só por lazer. Daí o Virgínia, com os seus impressionantes 999 lugares, ter noites épicas, em contraste com as poucas frequentadas noites de 5ª feira com os seus filmes mais “difíceis”, com sessões especiais marcada em cima do joelho por haver muita gente que não conseguira bilhete. Filmes como Música no Coração, My Fair Lady, Doutor Jivago, Um Violino no Telhado, Love Story ou Trinitá, foram só alguns desses filmes que levavam a sociedade torrejana e pessoas de fora (sim, que isto de haver um Virgínia na província era um luxo) a ver filmes que em Lisboa duravam meses e em salas mesopotâmicas como o Monumental, São Jorge ou Império. Sem esquecer, claro, as bíblicas sessões hardcore da meia-noite, em que 998 homens e uma mulher enchiam o Virgínia, num acto socialmente transversal como o de um estádio de futebol, onde se juntam fraternalmente pessoas de todas as classes sociais e ideologias.

O Cine-Clube era de outro campeonato, dando ao cinema um sabor mais gourmet: pela sua natureza política, por uma selecção de filmes mais restrita ou ainda por uma maneira de ver cinema que, comparada com a do Virgínia, era assim como a diferença entre uma igreja católica onde vai toda gente e uma daquelas adventistas do sétimo dia que ficam em prédios, quase não se distinguindo de uma casa particular. Isso transformava ainda mais o filme num objecto de desejo mas também de debate e reflexão que, depois das luzes acesas, levava à sala um elemento de racionalidade laboratorial que poderia prolongar-se no café Portugal ou na Viela.

Hoje, ver cinema, é cada vez mais um acto individual, desritualizado (sim, ir ao cinema tinha os seus rituais), em espaços profanos, já sem a escuridão que fazia com que a luz do ecrã sugasse toda a atenção do espectador. Agora que até já vi jovens a ver filmes em telemóveis, lembro-me da polémica com o surgimento do Quarteto devido à pequena dimensão dos ecrãs que iria matar o cinema, não conseguindo assim imaginar o ponto máximo de afastamento profano face às primeiras sessões dos irmãos Lumière onde tudo começou.

 

 

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