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O Tempo dos Gelados

Opinião  »  2019-06-19  »  José Ricardo Costa

"Uma das primeiras coisas que me ajudaram a dar uma ordem ao mundo foram os gelados"

Uma coisa que a natureza tem de bastante simpático, facilitando-nos a vida, é a sua circularidade. Por exemplo, as estações do ano. Fosse a natureza destrambelhada e nada poderíamos prever, deixando-nos à nora sobre o que fazer no dia seguinte. Este tempo circular não ocorre só na natureza mas também socialmente através de datas ou épocas pelas quais esperamos um ano inteiro para fazer certas coisas que nos dão prazer, físico ou espiritual. Ninguém apaga velas de aniversário só porque lhe apetece; não nos mascaramos no Natal; não juntamos a família no Carnaval; só na Páscoa comemos amêndoas; comemoramos o dia 25 de Abril e não o 27 ou o Dia D em vez do H. É bom comer amêndoas, apagar velas e celebrar um dia histórico mas temos de esperar que o ano dê a sua voltinha de 360º para voltarmos a fazê-lo.

Uma das primeiras coisas que me ajudaram a dar uma ordem ao mundo foram os gelados. Já não me lembro se era em Maio ou Junho que os gelados regressavam à arca do café Planalto para voltarem a desaparecer em Outubro para fazermos a travessia do deserto. Comiam-se gelados porque era Verão, Verão significava comer gelados, um perfeito se bem que efémero binómio.

Hoje temos gelados todo o ano, sendo como o Natal: quando um garoto quiser. Entra-se no supermercado em Janeiro e eis uma enorme arca, inesgotável como a água de uma nascente, só para gelados, fazendo-nos sentir Adões e Evas entre as árvores do Paraíso para comerem o fruto que lhe apetece. E vai-se a Lisboa em Fevereiro e comem-se gelados na Santini, vai-se ao Porto em Março e lá estão os da Amorino à espera.

Depois não é só isso. Acabou-se toda a mitologia do Super-Maxi, do Krisspi, do Perna de Pau ou do Epá com a sua não menos mítica pastilha enorme e redonda. Havia quem comprasse o Epá só por causa da pastilha. Quando num Portugal já mais evoluído surge o Corneto logo se torna o príncipe dos gelados, só mais tarde destronado pelo Magnum, todos os anos com uma novidade para excitar a garotada. Mas tudo isto sem sair de um geladífico universo apenas feito de pau ou em singelo copo de plástico para comer sentado num degrau depois de jogar à bola ou de uma volta de bicicleta.

Momento fracturante: a Viennetta. A Primavera marcelista dos gelados entre uma humildade ainda pré-europeia e uma já pletórica modernidade que levaria o sorvedor de gelados, antes mero caçador-colector sazonal, a um rotineiro sedentarismo com o gelado sempre à mão de semear para satisfazer as suas necessidades. Servir, depois de uma refeição, uma Viennetta, embora não passasse de um Super Maxi vestido de smoking, era já o anúncio do Admirável Mundo Novo no qual são mais os gelados a virem ter connosco do que nós com eles.

Mas não foi só este neolítico sedentarismo que mudou a nossa maneira de comer gelados. Todo aquele mundo reduzido a um pequeno grupo de gelados deu lugar a uma variedade que obriga muitas vezes a estar 10 minutos diante da arca do supermercado com laboratorial concentração para a difícil escolha, isto para já não falar no complexo mundo dos gelados de copo de vidro ou em prato em geladarias cada vez mais sofisticadas. Sim, estamos condenados a ser livres de escolher o gelado mas o caminho da liberdade será sempre o mais difícil de escolher, sobretudo quando estamos em plena encruzilhada de escolhas.

Por falar nisto, a minha Estrada de Damasco deu-se em Paris, Verão de 74, tinha 13 anos, perante uma Banana Split, numa geladaria do Boulevard Saint-Michel. Não sei se em Lisboa já haveria Banana Split em 1974. Provavelmente haveria mas eu vivia em Torres Novas e não em Lisboa. O impacto existencial daquela banana partida ao meio, acolitada por três bolas de gelado, chantilly e uma bolacha de baunilha com um chapéu- de-sol, foi tal que ainda hoje quando lá passo penso sempre nessa histórica banana que me fez descobrir um Mundo Novo, bem para lá da velha e rústica aldeia dos Super-Maxi e dos Krisspi. Poderei assim dizer, em virtude de tal impacto existencial de um mundo de novos possíveis, que o meu primeiro contacto com o existencialismo se deu precisamente em Saint Germain, só que não no Café de Flore ou no Les Deux Magots vestido de preto a ler Sartre, mas com uns calções às riscas a comer uma Banana Split. Ganhei uma nova liberdade mas também fiquei condenado a perder a pureza histórica e telúrica da minha fresquinha versão do Reno de Hölderlin

Hoje temos tudo, todo o tempo. Numa mecânica acção entre estímulo e resposta, deseja-se o gelado e come-se o gelado sem ter de esperar pelo tempo dos gelados. Sabe bem? Sabe. Acontece que a qualidade do desejo é inversamente proporcional à rapidez da sua satisfação. Tal como não faz sentido um preto de cabeleira loira e um branco de carapinha, também comer gelados no Inverno, apesar do prazer que dá, é mais uma facada num mundo em que havia uma ordem temporal estabelecida para dar lugar a um outro em que o círculo perfeito dos gregos deu lugar a um fio linear, sempre igual a si próprio e que mais parece o electrocardiograma de um moribundo.

 

 

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