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Tabacaria Central

Opinião  »  2018-01-04  »  José Ricardo Costa

"Houve uma mudança ainda mais radical: a virtualização do espaço lúdico"

Ser criança será sempre ser criança e é perante um chocolate ou um brinquedo que se vê. Uma coisa como o 1.º andar da Tabacaria Central numa pequena vila dos anos 60 como era Torres Novas, só não era uma utopia porque as utopias não existem e aquele 1ºandar era tão real como o castelo mais acima. Convém lembrar que é um tempo em que muitas crianças não têm brinquedos ou, se têm, são artesanais, como fisgas, rodas de bicicleta, bolas de trapos ou de papel prensado, carros de ladeira ou então objectos como caricas, botões ou berlindes. Daí que entrar naquele 1ºandar, sobretudo na época de Natal, e ver pistas de automóveis, comboios eléctricos, robots, legos, roupas de fantasia, actions men, matraquilhos, patins, flippers e dezenas de jogos em coloridas caixas de cartão, fosse assim como um adulto estar hoje na secção de detergentes de uma Galinha Gorda em Alhandra e aparecer de repente na secção de perfumaria das Galerias Lafayette.
Era a minha filha ainda adolescente, fomos à Hamleys, uma megaloja com vários andares só de brinquedos, na Regent St.. Dois anos depois, desta vez já com o irmão, ainda pequeno, chegámos a Londres num domingo à noite. A irmã tinha-lhe falado na loja e a excitação e mistificação eram tantas que prometi ser o primeiro sítio onde iríamos no dia seguinte. Mas não chegou. Lá fomos então os dois a pé, numa noite de chuva, desde Russell Square até à loja, só para ver a montra e provar que era mesmo real e não uma pérfida partida a uma criança inocente. Entretanto, estava eu estava a vê-lo espeitar para o interior de uma loja fechada e ao mesmo tempo a ver-me no 1ºandar da Tabacaria Central, que deve ser também mais ou menos o que se vê quando se chega ao santuário de Fátima após 200 km a pé. Por isso, insisto: ser criança será sempre ser criança e é perante um brinquedo que isso se vê. Porém, houve duas coisas que mudaram bastante na relação das crianças com os brinquedos.
A primeira, graças a uma natural evolução social e económica, foi a banalização do brinquedo. Se o entusiasmo e fascínio perante um carro telecomandado acabado de desembrulhar na noite de Natal continuam a ser os mesmos, o impacto pela posse do brinquedo mudou bastante, não só pela avalanche de brinquedos recebidos de uma só vez, temperando a importância de cada um, mas também pela sua constante presença na vida das crianças, em vez de coisa mesmo especial ou até impossível.
Mas houve uma mudança ainda mais radical: a virtualização do espaço lúdico. Brincar consiste cada vez mais em estar sentado num sofá com um tablet, playstation, smartphone, Game Boy ou perante um computador, desligando a criança do mundo real dos objectos assim como do seu próprio corpo, transformado num par de polegares e olhos enfronhados num monitor. Claro que jogar é jogar, brincar é brincar. Porém, como tudo o resto, jogar e brincar têm uma história. Uma história que faria com que hoje a Tabacaria Central se parecesse com aqueles velhos sótãos onde brinquedos há muito esquecidos se vão cobrindo de pó e teias de aranha.

 

 

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