• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Segunda, 20 Maio 2019    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Qui.
 26° / 12°
Períodos nublados
Qua.
 27° / 12°
Períodos nublados
Ter.
 24° / 11°
Céu nublado
Torres Novas
Hoje  23° / 10°
Períodos nublados
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

Bonés há muitos

Opinião  »  2018-05-17  »  José Ricardo Costa

"Mas o mais ingrato ainda é explicar a um aluno não ser suposto estar com um boné na sala de aula."

Há um romance chamado A Montanha Mágica cuja acção se passa num sanatório. Numa altura em que o cérebro humano já só está preparado para aguentar livros de “figuras públicas”, auto-ajuda, espiritualidades e receitas de cozinha, ou então estados de alma no Facebook e meia dúzia de palavras chilreadas a conta-gotas, torna-se bizarro haver quem se lembre de escrever romances passados em sanatórios e de ainda precisar de 700 páginas para o fazer.

Num sanatório, mesmo num todo finório como o do romance, é costume morrerem pessoas. Sendo verdade que morrer é uma prática habitual em pessoas que ainda estão vivas, num sanatório era-o bem mais do que hoje num salão de cabeleireira, no momento de mostrar o cartão Continente na caixa ou mesmo numa carruagem de metro em hora de ponta, já contando com aquele escatológico momento em que alguém se descuidou. Um dia, Joachim, personagem do romance, vai a andar num corredor lá do sanatório quando passam por ele três pessoas com o viático a caminho do quarto de uma infeliz menina. De repente, fica sem saber o que fazer pois não levava o chapéu para o tirar naquele solene momento. Contando depois o episódio ao primo, este lembra-lhe o dever de andar sempre com o chapéu, criticando ainda o facto de naquele sanatório ninguém o usar.

Vejamos, os chapéus não se inventaram para serem tirados mas para serem postos. Mas a partir do momento em que os homens passaram a pô-los, ficou combinado que tirá-los seria uma boa maneira de mostrar respeito pelas pessoas que se cumprimentam ou por certos lugares. Também as portas não foram inventadas para darmos prioridade aos outros, nem as cadeiras para serem cedidas aos mais velhos. Mas tornaram-se um bom pretexto para exprimir condutas moralmente sãs e fortalecer os laços sociais. Não tem que ver com regras de etiqueta, um código que serve para pessoas de uma classe social se reconhecerem e distinguirem das outras, fortalecendo assim laços endogâmicos que fazem de cada evento social uma teatral “petite Versailles”, tutelada pelo fantasma de Luís XIV.

Outra coisa são simbólicos códigos de vinculação social que reforçam a ideia de sermos animais políticos, como nos considera Aristóteles. Calma, lá por nos chamar animais não quer dizer que nos esteja a ofender como se fosse um de certos deputados da nação. Pelo contrário, é até um elogio por mostrar que apesar de fazermos xixi e cocó, o que sobretudo nos define é sermos dotados de racionalidade e linguagem numa sociedade humana, bem diferente do que se passa numa colmeia, formigueiro ou bancada com uma claque de futebol aos urros e grunhidos.

Daí haver hoje muita mocidade cujo comportamento está mais próximo dos crustáceos do que de seres racionais, mais dados a funções simbólicas do que a rastejar na areia sem saber muito bem porquê. Fazer compreender a certos jovens que não ficaria mal levantarem-se para dar lugar a uma pessoa mais velha ou darem passagem numa porta, é tarefa tão espinhosa como a de um franciscano a explicar pacientemente a um leão faminto, a fraternidade entre todas as espécies.

Mas o mais ingrato ainda é explicar a um aluno não ser suposto estar com um boné na sala de aula. Imaginemos uma pessoa que fazia uma viagem no tempo, sendo a máquina tão, tão, tão poderosa, que a pessoa só iria conseguir parar no Paraíso. Encontrava o Adão ainda com o barro a secar e dizia-lhe não ser bonito andar por aí com o pirilau à mostra. Por que consigo imaginar tão facilmente a cara de parvo do pobre Adão a ouvir aquilo? Porque seria a mesma das criaturas de boné na cabeça dentro da sala de aula quando resolvo fazer de Deus a tentar à força dar a maçã a trincar mas debalde.

O pragmático tempo dos bonés que parecem colados ao couro cabeludo com Super cola 3, em contraste com o elegante tempo em que os chapéus se punham e tiravam conforme as circunstâncias, é uma derrota da humanidade tal como Aristóteles a concebeu.

 

 

 Outras notícias - Opinião


Crise, Professores, Brexit e Venezuela »  2019-05-11  »  Jorge Carreira Maia

1. CRISE POLÍTICA. A questão da contagem do tempo de serviço congelado dos professores foi uma bênção caída do céu para os socialistas. Deu-lhes oportunidade de se mostrarem responsáveis, e mostrou uma oposição de direita desorientada, perdida entre o eleitoralismo puro e duro e, quando confrontada com a reacção de António Costa, em recuo humilhante perante a opinião pública.
(ler mais...)


Sondagens, Marcelo, Anos Sessenta e Notre-Dame »  2019-04-20  »  Jorge Carreira Maia

AS SONDAGENS E AS FAMÍLIAS. As sondagens reflectem já o desgaste que os socialistas estão a sofrer devido à trapalhada em que se meteram com as ligações familiares na governação.
(ler mais...)


O porco »  2019-04-20  »  Inês Vidal

Sentei-me no café a tentar escrever este “vinte”. Erro. A ideia que trazia, rapidamente se confundiu com a voz que esganiçada me ecoava repetidamente ao ouvido, vinda de uma televisão em altos berros, a história do terror – muito terror – de um jovem, um homem e um cão.
(ler mais...)


A FALTA DE ÉTICA QUE ANDA POR AÍ »  2019-04-20  »  João Lérias

Com os recentes casos das nomeações de pais e filhas, maridos e mulheres, primos e sei lá que mais, o país parece ter acordado para uma nova realidade que, não sendo nova, desta vez, sobretudo pela sua dimensão, é censurável.
(ler mais...)


A vitória do Chile »  2019-04-20  »  José Ricardo Costa

Torres Novas é uma terra cheia de ruínas, o que dá uma enorme tristeza e uma espécie de infelicidade urbana para a qual não conheço palavra. Ruínas não deveriam ser onde vivem pessoas mas em Pompeia, castelos na Escócia, abadias em Inglaterra ou anfiteatros na Grécia, onde apenas vivem fantasmas pacificamente misturados com turistas que chegam e logo partem.
(ler mais...)


A transparência das águas »  2019-04-20  »  António Gomes

Neste novo ano entrou em vigor um novo tarifário: pode-se mesmo dizer um novo e radical tarifário da empresa “Águas do Ribatejo”. A Águas do Ribatejo é uma empresa pública detida a 100% por 7 municípios do Ribatejo e que tem vindo a reerguer os sistemas de abastecimento de água e de saneamento que se encontravam na generalidade dos casos em péssimas condições.
(ler mais...)


Amor, vamos dar um tempo »  2019-04-20  »  Ana Sentieiro

Puberdade, temo que interpretes as minhas palavras de modo leviano, mas penso que chegámos àquele momento da relação em que já não faz sentido continuar. Desculpa, não tenciono desvalorizar o teu impacto em mim ou na minha vida nestes últimos anos que tivemos juntos, aliás, qualquer pessoa perceberia, ao olhar para a minha cara, iluminada por um tímido sorriso, que a tua presença era constante, quase como se fossemos um só.
(ler mais...)


Legislativas, Rui Rio, Refundações e Turquia »  2019-04-06  »  Jorge Carreira Maia

ELEIÇÕES LEGISLATIVAS. Ainda há que passar pelas eleições para o Parlamento Europeu, mas o acto político decisivo só chega com as legislativas. Aquilo que até aqui parecia inevitável, uma vitória com maioria relativa do PS e uma derrota da direita, não estará completamente seguro.
(ler mais...)


A família socialista, a democracia comunista, a transferência centrista e o terrorismo »  2019-03-23  »  Jorge Carreira Maia

A FAMÍLIA SOCIALISTA. O governo parece um lugar de convívio de famílias amigas. Não bastava já haver um casal de ministros e um ministro pai e uma ministra filha desse pai, agora a mulher de um outro ministro foi nomeada chefe de gabinete do Secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, cargo ocupado anteriormente pelo marido.
(ler mais...)


Como dantes não se falava, também não se dava por ela. »  2019-03-22  »  José Ricardo Costa


Qualquer pessoa normal é contra a violência doméstica. Acontece que não gosto da expressão “violência doméstica”, demasiado sociológica, urbana, abstracta, mera etiqueta que não faz jus ao tipo de aberração que pretende traduzir.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2019-04-20  »  Jorge Carreira Maia Sondagens, Marcelo, Anos Sessenta e Notre-Dame
»  2019-04-20  »  José Ricardo Costa A vitória do Chile
»  2019-04-20  »  Ana Sentieiro Amor, vamos dar um tempo
»  2019-04-20  »  António Gomes A transparência das águas
»  2019-04-20  »  Inês Vidal O porco