• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Sexta, 26 Fevereiro 2021    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Seg.
 19° / 8°
Céu limpo
Dom.
 20° / 8°
Céu limpo
Sáb.
 20° / 8°
Períodos nublados
Torres Novas
Hoje  18° / 10°
Céu nublado com chuva fraca
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

Bonés há muitos

Opinião  »  2018-05-17  »  José Ricardo Costa

"Mas o mais ingrato ainda é explicar a um aluno não ser suposto estar com um boné na sala de aula."

Há um romance chamado A Montanha Mágica cuja acção se passa num sanatório. Numa altura em que o cérebro humano já só está preparado para aguentar livros de “figuras públicas”, auto-ajuda, espiritualidades e receitas de cozinha, ou então estados de alma no Facebook e meia dúzia de palavras chilreadas a conta-gotas, torna-se bizarro haver quem se lembre de escrever romances passados em sanatórios e de ainda precisar de 700 páginas para o fazer.

Num sanatório, mesmo num todo finório como o do romance, é costume morrerem pessoas. Sendo verdade que morrer é uma prática habitual em pessoas que ainda estão vivas, num sanatório era-o bem mais do que hoje num salão de cabeleireira, no momento de mostrar o cartão Continente na caixa ou mesmo numa carruagem de metro em hora de ponta, já contando com aquele escatológico momento em que alguém se descuidou. Um dia, Joachim, personagem do romance, vai a andar num corredor lá do sanatório quando passam por ele três pessoas com o viático a caminho do quarto de uma infeliz menina. De repente, fica sem saber o que fazer pois não levava o chapéu para o tirar naquele solene momento. Contando depois o episódio ao primo, este lembra-lhe o dever de andar sempre com o chapéu, criticando ainda o facto de naquele sanatório ninguém o usar.

Vejamos, os chapéus não se inventaram para serem tirados mas para serem postos. Mas a partir do momento em que os homens passaram a pô-los, ficou combinado que tirá-los seria uma boa maneira de mostrar respeito pelas pessoas que se cumprimentam ou por certos lugares. Também as portas não foram inventadas para darmos prioridade aos outros, nem as cadeiras para serem cedidas aos mais velhos. Mas tornaram-se um bom pretexto para exprimir condutas moralmente sãs e fortalecer os laços sociais. Não tem que ver com regras de etiqueta, um código que serve para pessoas de uma classe social se reconhecerem e distinguirem das outras, fortalecendo assim laços endogâmicos que fazem de cada evento social uma teatral “petite Versailles”, tutelada pelo fantasma de Luís XIV.

Outra coisa são simbólicos códigos de vinculação social que reforçam a ideia de sermos animais políticos, como nos considera Aristóteles. Calma, lá por nos chamar animais não quer dizer que nos esteja a ofender como se fosse um de certos deputados da nação. Pelo contrário, é até um elogio por mostrar que apesar de fazermos xixi e cocó, o que sobretudo nos define é sermos dotados de racionalidade e linguagem numa sociedade humana, bem diferente do que se passa numa colmeia, formigueiro ou bancada com uma claque de futebol aos urros e grunhidos.

Daí haver hoje muita mocidade cujo comportamento está mais próximo dos crustáceos do que de seres racionais, mais dados a funções simbólicas do que a rastejar na areia sem saber muito bem porquê. Fazer compreender a certos jovens que não ficaria mal levantarem-se para dar lugar a uma pessoa mais velha ou darem passagem numa porta, é tarefa tão espinhosa como a de um franciscano a explicar pacientemente a um leão faminto, a fraternidade entre todas as espécies.

Mas o mais ingrato ainda é explicar a um aluno não ser suposto estar com um boné na sala de aula. Imaginemos uma pessoa que fazia uma viagem no tempo, sendo a máquina tão, tão, tão poderosa, que a pessoa só iria conseguir parar no Paraíso. Encontrava o Adão ainda com o barro a secar e dizia-lhe não ser bonito andar por aí com o pirilau à mostra. Por que consigo imaginar tão facilmente a cara de parvo do pobre Adão a ouvir aquilo? Porque seria a mesma das criaturas de boné na cabeça dentro da sala de aula quando resolvo fazer de Deus a tentar à força dar a maçã a trincar mas debalde.

O pragmático tempo dos bonés que parecem colados ao couro cabeludo com Super cola 3, em contraste com o elegante tempo em que os chapéus se punham e tiravam conforme as circunstâncias, é uma derrota da humanidade tal como Aristóteles a concebeu.

 

 

 Outras notícias - Opinião


Nicolau III - rui anastácio »  2021-02-22  »  Rui Anastácio

Dizia-se do último czar da Rússia, Nicolau II, que a sua opinião era a opinião da última pessoa com quem tinha falado. Cem anos depois, Nicolau II reencarnou em alguma daquela rapaziada que tomou conta dos principais partidos da nossa democracia.
(ler mais...)


Na mouche - josé ricardo costa »  2021-02-22  »  José Ricardo Costa

Quando saí de Torres Novas para ir estudar em Lisboa já sabia que iria depois sair de Lisboa para vir trabalhar em Torres Novas. A primeira razão para voltar foi de natureza umbilical: eu ser de Torres Novas como outros são de Mangualde ou Famalicão.
(ler mais...)


A pandemia, o Estado e os portugueses - jorge carreira maia »  2021-02-22  »  Jorge Carreira Maia

Se se observar o comportamento dos portugueses perante a pandemia, talvez seja possível ter um vislumbre daquilo que somos e de como gostamos de ser governados. Obviamente que não nos comportamos todas da mesma forma e não gostamos todos de ser governados da mesma maneira.
(ler mais...)


Altruísmo heróico e outras fábulas - carlos paiva »  2021-02-22  »  Carlos Paiva

O herói nacional, melhor jogador de futebol do mundo de sempre, segundo dizem, foi protagonista numa daquelas histórias que são matéria-prima para solidificar lendas. Nessa história, sublinhando as origens humildes, o estratosférico conquista mais um laço com o Zé comum.
(ler mais...)


A oportunidade da sobra - antónio gomes »  2021-02-22  »  António Gomes

Apesar da limitação de vacinas nesta fase, o país tem vindo a ser confrontado com variados episódios de vacinação fora do que está priorizado. Há sempre alguém que se julga acima das normas ou que faz as suas próprias normas e ultrapassa assim os que estão na fila, ou então por via de terceiros chegam primeiro à seringa.
(ler mais...)


São sobras, Senhor! São sobras! - ana lúcia cláudio »  2021-02-22  »  Ana Lúcia Cláudio

Na falta de acções presenciais, multiplicaram-se, nos últimos meses, as iniciativas on-line sobre os mais diversos assuntos. Num destes eventos em que participei, sensibilizou-me, particularmente, o testemunho de um ex-ministro social-democrata que, quando questionado sobre um eventual regresso à vida política mais activa, reconheceu que não pretende fazê-lo porque, e nas suas palavras, os quatro anos em que foi ministro mudaram-no, levando amigos e familiares mais próximos a dizerem-lhe que, nessa altura, ele não era “o mesmo Nuno”.
(ler mais...)


PSD: a morte há muito anunciada - inês vidal »  2021-02-20  »  Inês Vidal

 1. O PSD de Torres Novas é uma anedota. Ao mesmo tempo que digo isto, ouço já ao fundo vozes a erguerem-se contra esta forma crua e dura de arrancar com este texto. Imagino até as conclusões de quem tem facilidade de falar sem saber: é do Bloco, dizem uns, comunista desde sempre, atiram outros, indo ainda mais longe, lembrando que dirige aquele pasquim comunista, conforme aprenderam com o ex-presidente socialista.
(ler mais...)


Vacina »  2021-02-18  »  Hélder Dias

Développé - rui anastácio »  2021-02-07  »  Rui Anastácio

Passo de ballet, movimento em que a bailarina estica graciosamente a perna, tem diferentes níveis de dificuldade consoante a direcção da perna e a altura a que chega o pé, requer um grande equilíbrio e um elevado nível de concentração.
(ler mais...)


Não sabemos morrer - inês vidal »  2021-02-05  »  Inês Vidal

Ouço os sinais ao longe. Um pranto gritado bem alto, do alto dos sinos da igreja, por alguém que partiu. É já raro ouvir-se. Por norma, pelo menos na nossa cidade, ecoam apenas pelos que muito deram de si à causa religiosa.
(ler mais...)


 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2021-02-05  »  Carlos Paiva Hill Street Blues - carlos paiva
»  2021-02-20  »  Inês Vidal PSD: a morte há muito anunciada - inês vidal
»  2021-02-05  »  Jorge Carreira Maia O estranho caso das vacinas - jorge carreira maia
»  2021-02-18  »  Hélder Dias Vacina
»  2021-02-22  »  José Ricardo Costa Na mouche - josé ricardo costa